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Aos treinadores, num tempo de encruzilhada, por António Vasconcelos Raposo

No âmbito do Dia do Treinador, António Vasconcelos Raposo, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Confederação de Treinadores de Portugal, reflete sobre os desafios e o futuro da profissão, destacando o papel fundamental do Treinador enquanto educador e agente de formação humana e desportiva. Num tempo de transformação do Desporto, sublinha a necessidade de modernizar a formação, combater a precariedade laboral e garantir um enquadramento jurídico que assegure estabilidade, proteção social e progressão na carreira. Um apelo à valorização e ao reconhecimento de todos os Treinadores, cujo trabalho, muitas vezes invisível, é essencial para o desenvolvimento dos atletas, do Desporto e da sociedade.

Celebra se, nestes dias, o Dia Internacional do Treinador. E é justo que assim seja, pois raras profissões exigem tanto e recebem, em contrapartida, tão pouco reconhecimento público. Escrevo estas palavras não como quem cumpre um protocolo de circunstância, mas como quem sente urgência em nomear aquilo que frequentemente se cala.

O treinador é, antes de tudo, um educador. Molda corpos, mas sobretudo forma caracteres; corrige gestos técnicos, mas ensina também a lidar com a derrota, com o esforço sem garantias, com a disciplina que não promete recompensa imediata.  E, contudo, este papel formativo que raramente encontra tradução em condições dignas de trabalho.

A realidade que se vive em Portugal e em diversos países europeus é conhecida por quem a habita, ainda que pouco falada nos discursos oficiais. Vínculos precários, remunerações que não correspondem à formação exigida nem às responsabilidades assumidas, horários que devoram a vida familiar, ausência de proteção social equivalente à de outras profissões com semelhante grau de exigência técnica e humana. Há treinadores com formação avançada, títulos profissionais obtidos com esforço e investimento pessoal, que continuam a viver de contrato para contrato, sem estabilidade que lhes permita projetar o futuro. Esta precariedade não é acidente, é sintoma de uma desvalorização estrutural que urge corrigir.

Os Jogos Olímpicos de Paris vieram, todavia, lembrar-nos algo que talvez tivéssemos esquecido. Os resultados alcançados, as surpresas e as revoluções silenciosas verificadas em diversas modalidades, não nasceram do acaso nem apenas do talento bruto dos atletas. Nasceram de processos de treino repensados, de metodologias renovadas, de treinadores que souberam questionar certezas antigas e construir novos caminhos de excelência. Paris obriga-nos a olhar de outro modo para a formação de quem forma. Se os paradigmas do rendimento se transformam a esta velocidade, também a formação inicial e contínua dos treinadores tem de acompanhar essa transformação, sob pena de ficarmos a preparar hoje os treinadores para os desafios de ontem.

Faço, por isso, um apelo sincero. Aos governos, que compreendam que a dignificação da profissão de treinador não se resolve com boas intenções soltas no tempo, mas exige um enquadramento jurídico sólido e coerente, capaz de sustentar uma verdadeira carreira. É necessário rever e consolidar o estatuto profissional do treinador, clarificar vínculos contratuais que hoje se multiplicam em formas precárias e desprotegidas, e criar mecanismos legais que garantam progressão na carreira, proteção social efetiva e reconhecimento formal da experiência e da qualificação acumuladas. Sem uma arquitetura legal que estabilize o exercício da profissão, todo o discurso de valorização permanece letra morta. Importa, pois, legislar com visão de futuro, construindo um quadro normativo que proteja o treinador nos períodos de transição entre clubes ou entre ciclos olímpicos, que regule com justiça a rescisão e a renovação de contratos, e que distinga, com rigor jurídico, os diferentes níveis de responsabilidade e qualificação exigidos em cada contexto de treino. Só assim se poderá exigir, com legitimidade, revoguem-se práticas de contratação abusiva que ainda hoje persistem, e ofereça-se ao treinador aquilo que a sua missão formativa merece, um horizonte de estabilidade construído sobre bases legais claras e não sobre a boa vontade circunstancial de dirigentes ou instituições.

Ao público em geral, que aprenda a ver, por detrás de cada resultado desportivo, o trabalho paciente e muitas vezes invisível de quem passou anos a formar aquele atleta ou aquela equipa. Que reconheça no treinador não um mero técnico substituível, mas um profissional cuja missão atravessa o campo, a pista, a piscina, o pavilhão, e chega até à formação da pessoa.

A todos os treinadores, os que trabalham nos grandes centros e os que ensinam em modestos campos de aldeia, os que lidam com o alto rendimento e os que semeiam os primeiros gestos desportivos em crianças, a minha saudação mais profunda. O vosso trabalho, ainda que nem sempre visto, sustenta parte essencial do que somos como sociedade. Que este dia sirva não apenas de celebração, mas de compromisso renovado com a vossa dignidade profissional.

António Vasconcelos Raposo, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Confederação de Treinadores de Portugal